Artigos
Os caminhões e o agronegócio
Por Kátia Abreu
A nova lei de jornada dos caminhoneiros vai elevar os custos de transporte do agronegócio em até 40%
Estamos em plena safra de grãos,
colhendo nossa maior produção de todos os tempos. É um tempo de alegria,
mas também de aflições.
Nossas estradas, ferrovias e portos não
suportam a pressão da nossa grande agricultura e o que se tornou notícia
frequente na mídia não é o sucesso das fazendas, mas os
congestionamentos em estradas, pátios e portos.
Tudo isso gera custos adicionais e absorve boa parte da renda que beneficiaria os produtores. Mas também causa transtornos à população e ainda aumenta os custos de outras atividades produtivas que competem pela mesma logística.
O que torna tudo mais difícil é que nossa produção agrícola é refém das rodovias e dos caminhões, pois as ferrovias transportam apenas um terço das cargas e as hidrovias, não mais que 10%.
Tudo isso gera custos adicionais e absorve boa parte da renda que beneficiaria os produtores. Mas também causa transtornos à população e ainda aumenta os custos de outras atividades produtivas que competem pela mesma logística.
O que torna tudo mais difícil é que nossa produção agrícola é refém das rodovias e dos caminhões, pois as ferrovias transportam apenas um terço das cargas e as hidrovias, não mais que 10%.
E é isso que assegura a maior
competitividade dos Estados Unidos, nosso maior concorrente no mercado
global. Lá predomina, amplamente, o transporte pela bacia do Mississipi e
pela imensa malha ferroviária.
Falar de nossas estradas é repetir uma velha ladainha. As pessoas nem prestam mais atenção. Parece uma antiga maldição da qual não nos livraremos nunca. E a culpa é de todos os governos.
Falar de nossas estradas é repetir uma velha ladainha. As pessoas nem prestam mais atenção. Parece uma antiga maldição da qual não nos livraremos nunca. E a culpa é de todos os governos.
Hoje, o programa de concessões anunciado
pelo governo nos renova a esperança e o otimismo. Mas ao velho problema
das rodovias soma-se nova agravante. Foi sancionada em 30 de abril de
2012 uma lei que leva o nome de “Estatuto do Motorista Profissional” e
que regulamenta as condições de trabalho dos motoristas de caminhão.
O estatuto estabelece limites para a jornada de trabalho, determina a obrigatoriedade de interrupção para descanso a cada 4 horas e um intervalo de 11 horas a cada 24 horas de trabalho, além de outras regras para assegurar um limite humano e civilizado à dura tarefa de transportar cargas por esse imenso e desigual país.
O estatuto estabelece limites para a jornada de trabalho, determina a obrigatoriedade de interrupção para descanso a cada 4 horas e um intervalo de 11 horas a cada 24 horas de trabalho, além de outras regras para assegurar um limite humano e civilizado à dura tarefa de transportar cargas por esse imenso e desigual país.
Ninguém em seu juízo perfeito poderia se opor a essas condições, muito menos contestar sua oportunidade.
A trágica crônica de nossas estradas está repleta de estatísticas sobre acidentes causados por caminhões e seus condutores, em decorrência de jornadas acima da capacidade física e mental dos motoristas, sem falar dos relatos de uso de medicamentos para iludir o sono e o cansaço diante das pressões para cumprir horários impossíveis. Isso precisa, claramente, mudar.
Nós temos uma velha crença de que as leis, uma vez escritas, são capazes de mudar o mundo e resolver problemas, preferindo esquecer que as realidades são mais complexas.
A trágica crônica de nossas estradas está repleta de estatísticas sobre acidentes causados por caminhões e seus condutores, em decorrência de jornadas acima da capacidade física e mental dos motoristas, sem falar dos relatos de uso de medicamentos para iludir o sono e o cansaço diante das pressões para cumprir horários impossíveis. Isso precisa, claramente, mudar.
Nós temos uma velha crença de que as leis, uma vez escritas, são capazes de mudar o mundo e resolver problemas, preferindo esquecer que as realidades são mais complexas.
Por isso não foi surpresa que uma lei
feita para beneficiar os trabalhadores tenha sido violentamente
contestada por eles. Motoristas se mobilizaram e fecharam as principais
rodovias do país, pedindo o adiamento de sua implantação.
A implantação imediata da lei - justa e necessária – pegou de surpresa o agronegócio. Isso porque o custo do frete rodoviário é um item relevante da sua estrutura de custos.
A implantação imediata da lei - justa e necessária – pegou de surpresa o agronegócio. Isso porque o custo do frete rodoviário é um item relevante da sua estrutura de custos.
Fizemos um levantamento do impacto dos
custos adicionais acarretados pela lei em algumas das nossas cadeias
mais sensíveis ao custo de transporte. No caso dos grãos a estimativa é
que os custos de transporte vão se elevar entre 30 e 40%. Nas cadeias
das diferentes carnes, prevê-se uma elevação entre 20 e 30%. Para as
frutas, o impacto será de no mínimo 30%.
Para que a lei beneficie efetivamente os motoristas, e grande parte deles trabalha por conta própria, o prudente seria estabelecer um cronograma mais dilatado de implantação. Aí, sim, haveria tempo para que fossem construídos os postos de descanso nas rodovias e para que fossem formados muito mais condutores.
Com o novo regime, a mão de obra atual é, sem dúvida, insuficiente.
Para que a lei beneficie efetivamente os motoristas, e grande parte deles trabalha por conta própria, o prudente seria estabelecer um cronograma mais dilatado de implantação. Aí, sim, haveria tempo para que fossem construídos os postos de descanso nas rodovias e para que fossem formados muito mais condutores.
Com o novo regime, a mão de obra atual é, sem dúvida, insuficiente.
E serão necessários muito mais
caminhões, posto que os tempos de percurso vão aumentar e o número de
viagens por mês será reduzido. Da noite para o dia, tudo isso não se
fará.
A paciência é uma grande virtude, principalmente para legisladores e reformistas. Afinal, as leis são feitas para vigorar na terra, e não no cenário perfeito do céu.
A paciência é uma grande virtude, principalmente para legisladores e reformistas. Afinal, as leis são feitas para vigorar na terra, e não no cenário perfeito do céu.
*KÁTIA ABREU, 51, senadora (PSD/TO) e
presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil),
escreve aos sábados na Folha de S. Paulo.
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